Sustentabilidade

Argentina e Paraguai Miram Mercado Europeu de Farelo de Soja Diante das Regras da EUDR

A entrada em vigor do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), prevista para 30 de dezembro de 2026, está desencadeando um amplo reposicionamento logístico e comercial entre os gigantes sul-americanos da soja.

· Por Redação Agro Diário

Argentina e Paraguai Miram Mercado Europeu de Farelo de Soja Diante das Regras da EUDR

A entrada em vigor do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), prevista para 30 de dezembro de 2026, está desencadeando um amplo reposicionamento logístico e comercial entre os gigantes sul-americanos da soja. De acordo com reportagem especial da agência Reuters publicada nesta quarta-feira (28), esmagadoras da Argentina e do Paraguai articulam-se para ampliar sua fatia no fornecimento de farelo de soja à União Europeia, aproveitando os desafios logísticos enfrentados pelo Brasil na segregação de grãos exigida por Bruxelas.

O Brasil consolidou-se como o principal fornecedor de farelo de soja para as fábricas de ração europeias, respondendo por cerca de 50% das compras do bloco e batendo recorde histórico de 23,3 milhões de toneladas exportadas em 2025. Contudo, a Federação Europeia de Fabricantes de Ração (FEFAC) alertou que os rígidos requisitos de rastreabilidade georreferenciada e segregação física desde a fazenda até o navio poderiam restringir até 4 milhões de toneladas (cerca de 17% dos envios brasileiros), enquanto a câmara argentina CIARA-CEC estima uma janela de substituição de 5 a 6 milhões de toneladas.

Radiografia da Disputa no Mercado de Farelo de Soja (FEFAC / Reuters):

Posição Brasileira: Exportação recorde de 23,3 milhões de t em 2025 e liderança na UE, mas classificada com risco "médio" pela FEFAC devido à complexidade logística de segregar grãos ao longo de 2.000 km entre Mato Grosso e os portos.

Ofensiva Argentina: Maior exportador mundial de farelo (27 milhões de t), classificado como "baixo risco" pela FEFAC graças à concentração produtiva nos Pampas (a até 350 km do polo de Rosário) e ao sistema unificado VISEC.

Diferencial do Paraguai: Também recomendado como "baixo risco" pela FEFAC, amparado pela Lei de Desmatamento Zero vigente na Região Oriental desde 2004, segundo a CAPPRO.

Redirecionamento Geopolítico: Eventual avanço argentino na Europa abrirá espaço imediato para o farelo brasileiro expandir participação nos mercados em franco crescimento do Sudeste Asiático e Oriente Médio.

Logística de Longa Distância vs. Proximidade Portuária

A principal diferença competitiva apontada pelos analistas reside na geografia do escoamento. Enquanto na Argentina as lavouras dos Pampas situam-se a um raio máximo de 350 quilômetros do complexo agroindustrial e portuário de Rosário — facilitando a auditoria individual de cargas pelo sistema nacional VISEC —, a soja produzida no Brasil Central percorre mais de 2.000 quilômetros em modais combinados (rodovias, hidrovias e ferrovias), passando por armazéns coletivos onde grãos de diferentes propriedades são misturados para ganho de escala.

Para a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), presidida por Maurício Buffon, a legislação europeia desconsidera o rigor do Código Florestal Brasileiro, que obriga a preservação de 20% a 80% de reserva legal dentro das próprias fazendas privadas — exigência inexistente nos países concorrentes.

Reacomodação Global de Fluxos Comerciais

Especialistas de mercado destacam que o comércio global de commodities opera como vasos comunicantes: como a Argentina atualmente destina cerca de 25% de suas 27 milhões de toneladas de farelo de soja ao Sudeste Asiático, o desvio de cargas argentinas e paraguaias para cobrir exigências burocráticas da União Europeia deixará clientes asiáticos desabastecidos.

Nesse cenário, as indústrias esmagadoras brasileiras têm condições de redirecionar rapidamente seus volumes para mercados altamente dinâmicos da Ásia (como Indonésia, Vietnã, Tailândia e Filipinas) e do Oriente Médio, mantendo o esmagamento nacional em patamares recordes superiores a 60 milhões de toneladas.

Fonte e Referências Oficiais

Esta análise foi elaborada com base em informações de agências internacionais e entidades representativas da cadeia da soja:

Notícias Agrícolas / Reuters: Argentina foca mercado de farelo de soja da UE, enquanto regras antidesmatamento ameaçam Brasil
Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) • Estatísticas do Complexo Soja.
Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil).

Fonte: Reuters, Federação Europeia de Fabricantes de Ração (FEFAC), CIARA-CEC e Aprosoja Brasil